BLOG DA SEMANA 47/1 - ANO 1 - 2005
Esta semana estou inovando ao indicar como número do blog, 47/1. Isto porque prevejo que esta semanahaverá, pelo menos, mais uma postagem de um blog.
UM OLHAR SÔBRE A EUROPA - um amigo meu, atualmente habitando na Eslovênia, elaborou um bem fundamentado artigo sôbre a situação dos emigrantes e seus filhos, lutando por trabalho digno, na Europa. Como Professor visitante êle está em posição privilegiada como observador da cena européia. A seguir o seu trabalho:
A Europa esta em pânico com o que esta acontecendo na Franca. Alguns europeus
podem até ter achado certa graça de acontecer isso na Franca arrogante e altiva. Mas hoje a preocupação é consigo mesmo.Não há país europeu que neste aspecto, de imigração, de pobreza de seus imigrantes, de crescimento de população islâmica, de potencial de explosão, não seja também uma Franca. Desde a rica Eslovênia, católica até a medula, que após a independência e com guerra na Bósnia, viu crescer a sua população islâmica, que exige (não pede) mesquita em uma cidade de 300 mil habitantes, que tem mais de 50 igrejas católica e 27 comunidades religiosas registradas, até a Alemanha, que tem 600 mil eleitores turcos decidindo as eleições.
O velho continente teve mobilidade populacional nas ultimas décadas, que nem sempre foi acompanhada por mobilidade social. Ou, como mostraram estes acontecimentos, talvez nunca. O problema da exploração da mão de obra dos imigrantes, necessária dentro do modelo econômico e social criado, não é novo. O novo é que a legalidade ou ilegalidade dos imigrantes, inclusive milhares de brasileiros que estão na Europa, criou condições sub-humanas de viver, com baixa empregabilidade, em uma economia que precisa ser competitiva e precisa também cada vez mais de mão de obra qualificada. E esta vem dos países do Leste Europeu, e não da África e países do Magreb e Mediterrâneo, onde o acesso às escolas é nulo.
Na Europa existe uma nova realidade, uma nova sociedade, que ainda não achou o seu modelo social. Mesmo segundas e terceiras gerações de emigrantes que, por exemplo, na Alemanha se integraram ao mundo oficial e dos negócios com muito sucesso, são considerados nesses países imigrantes. Os acontecimentos franceses estão exigindo de um lado uma reflexão profunda da Europa sobre como será a sua sociedade baseada numa miscigenação de raças e convivência de crenças. O motivo do pânico é que todos os países têm problemas para resolver. Viram-se os acontecimentos terroristas na Inglaterra, e a União Européia não mostrou força política e nem vontade de sua liderança para resolver. Esse e o problema número um da Europa neste século, e o último a ser tratado pelos governos, burocracia e os políticos de Bruxelas.
O consenso entre responsáveis é que os modelos econômicos e de relações econômicas internacionais também devem ser repensados. O perdão da dívida dos paises mais pobres é um bom começo. Exigir maior transparência dos governos dos países pobres que permanecem pobres, gerando emigrantes, enquanto seus dirigentes possuem ricas contas no exterior, é indispensável para a solução do problema. Ou seja, o problema francês se tornou um problema bem maior do que apenas um problema de um país onde inclusive os dois responsáveis diretos pela solução, o primeiro ministro Villepin e o ministro do interior (polícia) Sarkozy, estavam no início da crise mais preocupados em prejudicar um ao outro para ganhar pontos na sucessão presidencial do que em resolver o problema. E faz crescer um outro perigo: políticas ultranacionalistas e grupos de direita,veja-se o caso de LePen na França e de Haider na Áustria, que vão só piorar a situação. Portanto continuamos perante um problema que tudo mundo viu, e ninguém quis enxergar. E é um problema de extensões maiores do que se imaginava na política internacional.
Nesse assunto também é necessário refletir sobre o Brasil. De um lado, a integração dos imigrantes que não deixaram de manter seus raízes mas se tornaram brasileiros. Não há brasileiro de segunda classe, como disse um jovem francês de origem africana para os franceses não brancos nascidos na Franca,no sentido de origem de nacionalidade ou origem. Mas, de outro lado, há no sentido econômico social. A imigração criou uma sociedade mais forte, mais progressista, pode-se dizer até mais brasileira, mas não resolveu as diferenças sociais cada vez mais acentuadas, inclusive por fracasso das políticas governamentais há décadas. Certamente devemos refletir, com base nesses acontecimentos franceses, sobre que sociedade temos no Brasil. Não só por medo de termos quebra-quebra, que aliás acontece de vez em quando, mas pela responsabilidade que temos com os segmentos mais pobres da sociedade. Talvez seria justo dizer que já passou da hora, que os que enriqueceram não podem continuar ignorando o que se passa no resto da sociedade e só descobrindo como fazer dos pobres mais mercado. Uma das formas á dizer aos governos e exigir dos governos ações sociais factíveis e fazer do desenvolvimento social a prioridade econômica. Não só falar, mas agir. A França não é ali, é aqui. Diferente, tropical, mas na essência a mesma. É aqui.
Stefan SALEJ
62 anos
ex Presidente da Federação das Industrias de Minas Gerais
Professor visitante do curso de doutorado IPS Jozef Stefan, Ljubljana
A ÂNCORA DA ECONOMIA - lida a matéria do Salej, vamos para o também excelente trabalho do Dr. Marcos Oliveira, Vice-Presidente da ABIFINA, publicado na edição 209 do informe mensal desta entidade. "Um estrangeiro que aqui chegasse, com algum conhecimento do desempenho macroeconômico do Brasil e de seus principais indicadores sociais, diz êle, certamente ficaria surpreso com a difusão generalizada da idéia de que a âncora que resta ao Presidente Lula para resistir à tempestade política é o sucesso do País no campo da economia e que seus principais fiadores são o Presidente do Banco Central e o Ministro da Fazenda."
"Surpresa, prossegue êle, em primeiro lugar, porque as linhas gerais da orientação econômica do BC e do MF, não vêm do Presidente Lula, são anteriores a ele, e em segundo lugar, porque esta orientação, em tantos e tão importantes pontos equivocada, é a principal responsável pelo longo período de pífio crescimento nos indicadores de desenvolvimento do País, desenvolvimento que, afinal, é o que interessa a um país, qualquer País."
"As diretrizes do chamado Consenso de Washington, que em geralforam adotadas pelos mentores da política econômica do Brasil dêsde 1990, mostraram-se equivocadas e contraproducentes para os países em desenvolvimento (entre 1990 e 2004 a evolução do PIB per cápita, a preços de 2004, foi de apenas 14,4%, menos de 1% na média dos 15 anos, diz o articulista em outra passagem)."
Chamar o que temos aqui de política econômica bem sucedida - e até elogiada pelo Presidente George W Bush na sua recente visita ao Brasil - parece um certo exagero, prossegue o Dr. Marcos Oliveira que acrescenta"que fica mais evidente quando se vê o MF continuar a dificultar outras iniciativas governamentais em prol do desenvolvimento do País."
E para finalizar o tópico, transcrevemos o parágrafo final do artigo: " A análise da pauta de importações brasileiras mostra claramente a fragilidade nacional em produtos químicos, farmacêuticos, eletroeletrônicos, petróleo e petroquímicos, e o MDIC e o MRE, coerentemente, focaram suas iniciativas no desenvolvimento destes setores, não apenas com a velha prática de importação de tecnologias para substituir importações via fabricação local, mas agora introduzindo novas diretrizes, como a de fomento à inovação, por exemplo. Estas políticas foram gestadas em forte interação com as classes empresariais e setores da academia e gozam de respaldo público. Na sua implementação, o adversário a vencar é mais uma vez a miopia da Fazenda e seu horror aos gastos do desenvolvimento, que iriam diminuir os recursos para pagar juros, aparentemente a atividade predileta dos seus formuladores políticos. E´pouca âncora para muita tempestade."

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